terça-feira, 22 de setembro de 2009

Captando o mundo ao redor

Fica dentro de mim um certo desalento por observar que está morrendo o romantismo, eu que sou uma romântica incorrigível e que tento colocar dentro das minhas poesias e prosas todo um mundo de sonhos e ilusões. Eu ainda gosto de sonhar e cuido do meu coração como se ele ainda fosse um adolescente pronto para se apaixonar indefinidamente, solto o pensamento buscando algures um motivo nobre para ter esperança.
Desde que aprendi a me pensar e me descobrir como pessoa repleta de sentimentos e emoções passei a observação de tudo que se passa ao meu redor, chegando muitas vezes a remoer anos alguma coisa até lhe descobrir o significado. Não tenho e nunca tive o hábito de perguntar como o outro percebe as coisas que o cercam, sempre me limitei a observar atentamente e descobrir através de uma sondagem sutil, seja pelos gestos, pelas expressões ou comportamentos. Não é uma pessoa especificamente que me interessa e sim seu comportamento, seus maneirismos e costumes, além é claro de todo um complexo de informações pela mídia, experiências pessoais, conversas e literatura.
Ao longo da minha vida tenho ainda dividido momentos cruciais, tristes e alegres com familiares e amigos que vão somando informações importantes, mesmo quando não estou pensando nos aprendizados desses momentos eles vão sendo armazenados e quando encontram situações semelhantes mostram-se e registram as impressões principais. Com mais de meio século de existência e experiências emocionais variadas é possível ter uma amostragem grande de comportamentos, reações e as correlações que elas têm com sentimentos e emoções. Como também é possível ter as explicações para esses acontecimentos por vários ângulos, além de saber qual o comportamento realmente é mais usual e o mais adequado para cada situação.


Bom Dia ( da série Bom dia)
Angélica T. Almstadter


De todas as coisas válidas, o que se conta são as experiências, o que fica retido na memória e essa é a nossa essência e o combustível que nos move no dia a dia. O que trazemos guardado na memória e no subconsciente são tesouros que ninguém pode roubar, e ainda que possamos dividir com um número cada dia maior de pessoas; nunca diminui, nunca se acaba e a medida que fazemos uso movimentam a engrenagem toda da nossa vida, nos mantendo vivos e ativos.
Somos a maior complexidade da natureza, pois que além de uma máquina completa que tem funcionamento perfeitamente preparado para enfrentar desafios cada vez maiores e mais elaborados, temos corpos outros que nos dão dimensões diferenciadas; temos alma, espírito e aura que complementam essa diversidade nossa e que nos distingue de toda a criação divina.
Embora a complexidade humana de cada um de nós tenha a mesma base, somos seres diferenciados não só geneticamente, somos, cada um de nós, uma essência única e imutável.
Tão grande e inexplicável é o mistério que envolve cada um de nós que é impossível tentar compreender ou traduzir em palavras o que é a composição de um ser humano em todas as suas dimensões. Não falo de ciência ou de religião ou de mistérios sensoriais, nem da física, nem da parapsicologia ou psicologia, nenhuma ciência por mais completa que seja explicaria com certeza a funcionalidade de cada um num todo, e o por quê da nossa existência.
Está acima do homem e da sua notável capacidade de compreensão os mistérios que justificam a sua composição tanto física como espiritual, e é ai é que mora o grande barato da vida, descobrir a cada dia do que somos capazes, até onde vai os nossos limites, físicos, intelectuais e emocionais.
Em tudo que observamos ao nosso redor, encontramos explicações ou procuramos sempre encontrar, faz parte da natureza humana a observação e tentar encontrar respostas, o homem é um eterno descobridor, é um ser investigativo, e que por ser assim um ser dotado de inteligência está sempre analisando cada vez mais fundo tudo que lhe cerca.
Entretanto como se diz que há mais mistérios entre o céu e terra do que sonha nossa vã filosofia (Shakespeare), prefiro caminhar não pela razão, mas pelo coração, já que o meu coração é o mensageiro da minh'alma e em conjunto definem minha essência única e dela faz a minha vida ser para mim mesma um mistério novo a cada dia, e me põe em campo a pesquisar as minhas razões.
Sou de mim mesma um exploradora incansável, e enquanto a vida me apresentar novas promessas serei sim a cobaia e descobridora dos meus próprios limites e mistérios, levando em conta que abaixo do meu Mestre só eu posso me explicar, se conseguir; e só eu mesma posso me sentir, e isso eu considero um presente divino.






Para muitas pessoas o poeta ou artista de um modo geral, são seres alienados e eu digo que muito pelo contrário, essas pessoas têm as antenas mais sensíveis que as outras pessoas e por isso mesmo é que captam coisas, sentimentos que passam pelos outros sem que eles lhes dêem atenção.
O lado oculto de ser poeta é que tudo nele é visto com lentes de aumento, cada detalhe, cada palavra de um diálogo, cada suspiro e cada expressão por menor que seja, e quando cada situação é vivida pelo poeta, ninguém pode imaginar a ebulição que se dá dentro do seu ser, pode ser essa situação de alegria ou tristeza.
O ver por uma lente de aumento não quer dizer aumentar a proporção, mas sim ver e sentir sutilezas que não se vê sem estar com a alma aberta para o mundo como a do poeta ou do artista está.
Não menosprezando a visão ou o sentimento dos não artistas, mas usando de uma franqueza absoluta: Os artistas de um modo geral são pessoas especiais, pois têm a missão de imprimir na sua arte o sentimento e a emoção para o conhecimento e alegria das pessoas. O artista se comunica com as pessoas através do sentimento, da emoção, porque esta é a verdadeira face do ser humano, a que não pode se trair nunca.
Por mais que tente colocar em palavras uma emoção vivida o poeta nunca o consegue totalmente; dentro de nós a coisa se processa de tal forma que palavras ficam poucas para expressarem nossos sentimentos nossa emoção, de forma a colocar para as pessoas sentirem senão igual, ao menos próximo, do que sentimos quando nos expressamos em palavras, da mesma forma é para um pintor, um escultor ou outro ramo da arte.
Parece-nos sempre que olhamos para a nossa criação que está incompleta, daí o hábito de alguns sempre retocarem, é uma maneira de tentar tornar a nossa arte além de mais bela, mais fiel ao nosso sentimento.
Ao olhar para o mundo e para as pessoas nós poetas temos uma visão muito crítica e muito sofrida, porque por termos a alma aberta para captar emoções e sentimentos, fica impossível não traduzir nosso sentir na nossa arte, já que ela é o nosso reflexo imediato, assim se nos deparamos com coisas boas ficamos exultantes e nossa arte reflete nosso estado de alma, se vivemos momentos de intensa alegria nossa arte explode em cores, e se ao contrário nosso canal capta as dores e mazelas, certamente nossa criação se arrastará dolorida, e talvez dê mais frutos ainda, porque além da tristeza e da dor ficamos com a alma tão compungida que ela nos exortará a criar mais e mais como a buscar em cada criação a maneira mais próxima de expressar a realidade do sentimento ou para sangrar até esvaziar a sensação que tomou conta de nossa alma.
A poesia não se extingue dentro do poeta, porque o que move as palavras do poeta são os sentimentos e emoções por ele experimentados e a sua necessidade de esvaziar a sua alma nas palavras, que compostas à sua maneira própria expressam um momento único onde o seu eu conversa com a sua alma e em harmonia traduz nas letras toda a emoção. Após cada criação o poeta fica em êxtase, seu “filho” está ali bem diante dos seus olhos
e ele tem para com esse “filho” tanto amor quanto se tem por um concebido da carne, esse é o filho da emoção.
Cada criação tem para o criador a lembrança de um momento especial por ele vivido, pode-se até esquecer o motivo que o levou a criar, mas nunca esquecer o sentimento e a emoção no momento da concepção, o poeta tem a memória sensorial permanente.


Bom Dia (da série Bom Dia)
Angélica T. Almstadter


Quando dou vida às palavras, deixo que adentrem os meus sonhos e explorem os recantos da minh'alma, mas não dou espaços e desvãos imerecidos a quem não saiba ler e merecer adentrar meus mistérios, os segredos dos meus férteis sentimentos.
Na vida que desabrocha das minhas palavras quase sempre imprimo um pouco da minha essência, e quem há de senti-la se não me souber ler, ou passear nas minhas entrelinhas repletas de recados ou reclamos.
Quem há de decifrar meus desafios diários ou meus jorros, sem se despir dos preconceitos?
Não...não há de me entender plenamente quem não tiver a alma aberta aos vôos e o coração limpo das amarras e impurezas que prendem à carne, ao mundo das coisas tangíveis e das orgias, pois essas não entoam cânticos, nem sabem da leveza do espírito, nem da alvura da alma.
É inútil cantarolar para a insensibilidade das cervizes duras.
É inútil cantarolar para a luxúria. Não se reconhecem passos leves no chão onde só se ouve a cavalaria trotear.
Dou asas aos meus sonhos porque vão ao infinito e se misturam ao pó das estrelas, às chuvas siderais onde cada partícula tem sua importância, num espaço onde não haja donos e a imensidão os acolhe no silêncio.
Onde a vida só a eles pertencem, porque são livres, castos ou não sem que isso tenha a menor relevância.
Vida que te quero sempre viva nas minhas palavras, alegre, irreverente, audaz, provocante, simples, romântica, mas eternamente pura,
como nasce; sem travas e sem medo do reflexo verdadeiro que a faz de mim sua condutora plenamente sincera.







O mundo está cheio de artistas e poetas e a grande e esmagadora maioria não vive da sua arte, e está aí em muitas outras profissões ganhando o seu sustento e muitas vezes matando o seu poder de criação pela falta de tempo. A criação exige tempo, coisa que fica cada vez mais rara num mundo onde se precisa matar um leão por dia para sobreviver. Mesmo que esses poetas não possam de dedicar à sua arte ou dedique a ela um tempo pequeno, o seu “radar” está pelo mundo a captar os sentimentos e emoções do que gira ao seu redor. O que será que acontece com esse radar de emoções se não expressar de alguma forma? Como será que esse radar vai esvaziar-se se muitos não encontram uma forma de desfazer-se dessa coisa que se avoluma nele? E o que é pior, nem sabem que são antenas nesse mundo.
Todo ser humano tem dentro de si um potencial a ser desenvolvido e quando é descoberta a sua “veia” para uma determinada arte ou função, mesmo que ele faça uso desta de maneira regrada, isso faz com esse ser humano seja mais equilibrado. Por quê? Porque o atrito entre ele e a sua alma acaba sendo menor.


Não se pode imaginar que uma pessoa viva de forma equilibrada se ela não estiver contente com seu trabalho, vamos dizer que ela não tenha uma profissão que goste, não tenha uma situação financeira favorável e se ainda por cima não for feliz na vida amorosa. Se essa mesma pessoa, nas mesmas condições for um radar e tiver a chance de exteriorizar pelo menos parte do que capta, certamente ela conseguirá conviver com essa situação e terá forças para lutar e mudar esse quadro, ou pelo menos parte dele, sem que para isso ela tenha atos comprometedores na sociedade, como a delinqüência. Ao contrário, se não houver para esse radar um canal para escoar o que dentro dele se avoluma, o mais certo é que ele somatize para seu organismo, adoecendo. Algumas dessas pessoas que têm esse “radar” não conseguem conviver com essa coisa de captar sentimentos e emoções, alguns se perdem da razão e acabam por cometer crimes, outros ainda desenvolvem patologias psíquicas. Uma grande soma de pessoas não se conhece e não se conhecendo não tem idéia de suas habilidades e potencialidades, é onde então ela se perde do seu eu, vive por viver sem se questionar e estaciona sem enxergar nada além do seu mundinho físico.


Então se todo ser humano tem em si um potencial a ser desenvolvido e essa mesma pessoa, em iguais condições não for um radar provavelmente ela terá condições racionais de procurar uma profissão onde se realize e uma situação amorosa que combine com sua maneira de ser. Esse não radar está entre as pessoas que falei lá atrás que tem mais intimidade com as coisas da matéria.
Se partirmos do princípio de que há radares e não radares imaginamos que ambos têm visões diferenciadas do mundo e ambos têm uma maneira singular de viver. Agora, se esses dois biótipos não forem reconhecidos por si próprios como pode o mundo ao seu redor conhecê-los e diferenciá-los? Por que diferenciá-los?
Seria ideal se cada pessoa tivesse um encontro consigo própria para definir em que grupo está para se situar melhor no que a cerca e no mundo. Não que isso devesse dividir em clãs as pessoas, mas com isso integrá-las de forma a que interajam mais no seu meio contribuindo para que os seus semelhantes encontrem nelas o exemplo para buscar o equilíbrio e a forma mais humana de viver
Reafirmando, não se trata de dividir as classes, menos ainda de rotular, o que é preciso é que as pessoas aprendam a olharem para dentro de si e dessa forma identificarem o modo de vida próprio de sua natureza para assim descobrirem o que contribui para que elas produzam mais e melhor, tanto no âmbito familiar como social, tanto os radares como os não radares.
Diminuiria sobremaneira a violência e as patologias se os radares se aprendessem como tal e se dessem o prazer de escoar através da arte ou dos interesses pelas causas humanitárias toda essa bagagem que amontoam dentro de si.



Bom Dia ( da série Bom dia)
Angélica T. Almstadter

Tantos são os caminhos, tantas as porta, tão longas as distâncias.
Tão ligeira a imaginação e tão difícil os acessos.
Tantos são os atalhos, tão sutis as falas
e tão breves as circunstâncias.
Momentos, isso sim, são feitos de momentos os nossos melhores dias,
nossos mais fraternos encontros.
Deixam marcas visíveis,
deixam páginas inteiras escritas, deixam saudades gostosas,
saudades doídas.
Deixam uma lágrima que nunca seca.
Não se foge do caminho que está sob os pés,
Ainda que esmurremos portas erradas, a porta certa está levemente encostada
esperando ser aberta muitas vezes; à nossa frente...
e na hora certa, num passo iremos transpô-la.
Não sei se o futuro está gravado em algum livro,
não sei se os acontecimentos
do hoje determinam o amanhã. Sei que caminhamos inexoravelmente
para o amanhã...às cegas.
Sei do que está refletido na minha retina, do que é ansiado por mim, do
que busca meu interior, minh´alma. Sei bastante de mim, sei bastante do que quero, sei do mundo que vivo...
Sei do que preciso. Só não sei se existe...
Sigo minha intuição, minha inclinação, tateio e reconheço alguns traços...
Recolho alguns pedaços dos fatos dos lapsos e em algum ponto hei de
encontrar por inteiro o que me for verdadeiro.
Há um horizonte calmo e definido desenhado à minha frente,
sei que me convida, e com ele vou ter, hoje ou amanhã;
porque sei que me aceita, me tem como sua eleita,
e me embala os sonhos todos os dias em que me perco nas suas
linhas mansas e profundos rasgos.
Não sei se o alcanço enquanto a vida me pulsa,
mas sei que lá derramarei minha essência,
e lá moram minhas vontades...lá sossegam minhas vaidades.
Assenta-se tranqüila minha insanidade.
Lá onde minha inquietude não é questionada.
Lá e só lá me encontrará a vida.




Os artistas e os poetas não carecem necessariamente da paternidade carnal, já que a sua criação acaba por preencher esse espaço; pode parecer louco esse pensamento, entretanto é fácil compreender quando se tem dentro de si essa experimentação, essa visão. Não se exclui desses radares o prazer da paternidade carnal, evidentemente, nem se pode dizer que sua criação é igual a carnal, como também não se pode dizer que os radares não sintam a necessidade ou o desejo da paternidade carnal.
Ao passar um olhar rápido pela história da humanidade a gente comprova isso: Bethovem, Van Gogh, Fernando Pessoa, Mahatma Gandhi, entre outros, sendo que nesse último exemplo temos Gandhi que voltou o seu “radar” em função das questões humanitárias, uma outra forma de esvaziar-se e ao mesmo tempo satisfazer-se como pessoa. Há casos como o de Jean Jacques Rousseau que teve filhos, mas os entregou para instituições porque não se sentia capaz de ser pai com a qualidade necessária.
Os radares de emoções carecem da maioria do seu tempo para criarem, pensarem, refletirem para assim poderem traduzir em textos seus pensamentos, emoções e sentimentos. As pessoas radares que se dedicam as grandes causas humanitárias, são pessoas desprendidas que se preocupam mais com a humanidade com que realmente o que acontece em suas vidas.
A maternidade tanto quanto a paternidade exigem o dom de estar disponível, de se doar por completo, como exige um compromisso e a responsabilidade integral até o fim, evidente que não é preciso abrir mão da sua vida, mas é preciso estar presente sempre como pai ou mãe, a maternidade e a paternidade também é uma vocação.



Da mesma forma que o poeta (ou artista) parece viver alienado porque se interioriza para criar, vive um radar aquele que é um captador de emoções em potencial, mesmo que às vezes ele não saiba que tem esse potencial, são pessoas que gostam de ficar quietas, gostam de ter momentos de solidão para refletir, gostam de ler e toda forma que possa encontrar para estar a sós consigo mesmas. Normalmente as pessoas radares mesmo que extrovertidas são consideradas solitárias, fica claro na maneira que agem, falam e comportam.
Muitos atos estabanados que culminam em violência têm a ver com a invasão de privacidade dessas pessoas, que sem o saberem reagem assim como defesa porque há nessas pessoas um desequilíbrio entre sua alma e seu eu. Mas por quê? Porque essas pessoas não sabem como ou não tem um canal para escoar suas emoções e com isso reagem com explosões violentas ou doentias. Essa falta de conhecimento do lado captador faz com que muitos desses radares vivam em desarmonia consigo mesmas, com as famílias e com a sociedade. Isso talvez explique alguns comportamentos.
As pessoas de um modo geral precisam de uma válvula de escape, alguma coisa que as desligue da rotina e dê prazer, por isso é preciso escolher alguma coisa que relaxe ao invés de deixar tensa. É preciso escolher alguma coisa que acima de tudo dê prazer, que gere alegria e por sua vez libere serotonina. As pessoas que não têm válvula de escape enrijecem e vivem de mau humor.
O fato das pessoas não se conhecerem, mesmo com toda a evolução, é que torna a psicologia, psiquiatria e a psicanálise extremamente importante, embora essas práticas não estejam ao alcance da maioria das pessoas. É uma prática comum as empresas passarem seus candidatos pelo crivo desses profissionais a fim de adequarem aos cargos os perfis dos entrevistados.




Estatutos do Poeta
Angélica T. Almstadter

Ao poetas deveria ser dado somente o direito de sonhar, sem ter que se preocupar com responsabilidades, sem ter que se guiar pelos relógios dessa terra. Os poetas tem as estrelas e os astros como parâmetros.
Aos poetas não deveria ser dado nenhuma obrigação, não para fazê-los vagabundos, mas para deixá-los livres para o mundo.
Aos poetas não se deveria impor o sacrifício de ganhar o seu sustento, o poeta precisa menos do alimento para o corpo que o linimento para a su´alma.
Aos poetas, jamais deveriam ser solicitadas prestação de contas; hora marcada, noção de dia e mês, nem se é de tarde ou madrugada.
Os poetas são seres sem amarras, sem censuras e sem travas. Não sabem viver algemados, não suportam bater o ponto. Não são felizes com asas cortadas.
Os poetas deveriam ser perdoados dos seus esquecimentos dos seus devaneios fora de estação.
Os poetas deveriam ser poupados da razão. Deveriam ter o direito de interromper o que quer que fosse, para rabiscar um pensamento, rascunhar um poema, em qualquer lugar que estivesse, em qualquer hora que a inspiração chegasse, para jamais correrem o risco de se perderem de sua alma, nos momentos de vôos que só aos dois pertence.
O silêncio é o combustível do poeta e deveria ser respeitado, tanto quanto sua tristeza, que não poderia nunca ser investigada.
O poeta gosta da solidão, convive muito bem consigo mesmo, ainda que exploda em versos, prosas e muitas palavras soltas e em tantos pensamentos, até sem cabimentos. O poeta só precisa de um ouvinte, um leitor atento, de carinho, afagos e um, colo sossegado para vaguear os seus desvarios.
O poeta é um amável insensato, que dorme quando deveria estar acordado e tem insônia quando o mundo todo dorme sossegado.
Ao poeta, se deveria perdoar a loucura, a pouca compostura, o cabelo despenteado, o olhar esgazeado; pois a insanidade do poeta é eterna, além da saudade, pois sem saudade, o poeta não hiberna.
Os poetas são sonhos personificados e só por isso deveriam ser cortejados, respeitados e poupados das mágoas desse mundo, pois já tem as suas próprias. Poupados deveriam ser das dores, pois já sangram, sensivelmente pelas dores do ser amado.
Aos poetas, a anistia da razão a euforia da emoção e o beijo delicado.
Ah! Os poetas, esses gentis amantes com suas paixões intermitentes e eternos amores; são deliciosamente ousados e infinitamente atraentes.
Que se lavrem o estatuto, que se reconheçam esse tratado.
Que se abram as portas e que seus vôos beijem, o azul da imensidão sem regras, sem rótulos e sem grilhões; enquanto ainda vivem os poetas nesse mundo de ilusões.

Um comentário:

  1. Continue a exploração sagrada. Seguindo as tuas lentes.






    Beijos,










    Marcelo.

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